A
idéia de que o sexo patológico é uma dependência permite uma analogia com outros
"vícios". A eficácia do uso de antidepressivos no tratamento de usuários de
drogas já foi comprovada em várias pesquisas científicas. Ao considerar a
dependência sexual como tendo as mesmas características de outras dependências,
Vieira se propôs a estudar a eficácia dos antidepressivos na "voracidade" dos
pacientes, como tema de sua dissertação de mestrado.
Para tanto, o grupo de pacientes do ambulatório foi dividido em dois: metade
passou a receber fluoxetina, a substância ativa do Prozac, e à outra metade foi
dado placebo - cápsulas com farinha. Como de praxe, Vieira e os pacientes não
sabiam quem integrava cada grupo, para não serem influenciados - prática
científica conhecida como duplo cego.
O primeiro resultado observado foi a desistência: depois de três meses de
pesquisa, um terço do grupo havia deixado de freqüentar as reuniões. Seis meses
depois de iniciado o estudo, dois terços do grupo original havia desistido. A
perda foi proporcional entre a metade medicada e a não-medicada. O alto índice
de desistência levanta a possibilidade de que as pessoas não querem se submeter
ao tratamento. "Nas dependências em geral, logo no início perde-se 50% dos
pacientes, apenas cerca de 30% passam pelo tratamento completo", diz Vieira.
Tratar as conseqüências é diferente de tratar o comportamento, explica. As
pessoas querem se livrar dos "efeitos colaterais", mas não querem mudar a sua
forma de agir.
Vida Sexual
História dos transtornos sexuais
Alexandra Ozório/Revista Saúde Paulista
(Unifesp)
Relatos de comportamento sexual incomum existem desde a Antigüidade. Na
mitologia grega há casos de adultério, incesto e promiscuidade. Na Roma Antiga,
rituais orgiásticos faziam parte do calendário religioso. Com o
decorrer dos séculos, a percepção do sexo, "desviante" ou não, era
determinada pela moral. Foi apenas no século 19 que desvios sexuais
tornaram-se tema da medicina, deixando de ser uma "imoralidade" e passando a
ser uma "doença".
O pioneiro na compilação e classificação "científica" dos comportamentos sexuais
anormais foi o psiquiatra e neurologista alemão/austríaco Richard von Krafft-Ebing (1840-1902). Sua principal obra, Psychopathia Sexualis
(editada no Brasil pela Martins Fontes), lançada em 1886, traz 237 relatos
de atos sexuais "aberrantes". Esses foram classificados pela primeira vez em
categorias como necrofilia, bestialismo, sadomasoquismo, exibicionismo e
fetichismo, entre outros.
O homossexualismo era uma das "aberrações
sexuais" que mais preocupavam o médico, que apontava como causa principal a
degeneração hereditária, ou também masturbação e promiscuidade. Por mais
moralista ou ultrapassada que pareça, sua classificação foi uma tentativa de
ordenar o insipiente campo da psiquiatria. O trabalho de Krafft-Ebing foi retomado pelo austríaco que
revolucionaria a compreensão da sexualidade.
Sigmund Freud citou-o várias vezes em seu
famoso livro Três ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade, de 1905 (editado no Brasil pela Imago). Freud
considerava esse livro um dos pilares da psicanálise, pois continha suas
idéias sobre sexualidade infantil, sobre o bissexualismo inerente aos
humanos, sobre o complexo de Édipo e sobre o nosso assunto: a diferença
tênue entre práticas sexuais normais e anormais. Para o pai da psicanálise,
desejos sexuais travam conflitos entre si, com as convenções sociais e
principalmente com a realidade. Em sua teoria, esses desejos são
fundamentais, mesmo nunca sendo totalmente satisfeitos.
O homem deseja o que não tem ou o que
perdeu, e esses desejos não satisfeitos podem expressar-se de formas
surpreendentes ou até perturbadoras. Dessa forma, os distúrbios sexuais ganham o
campo da psicologia nas décadas de 1930 e 1940 e começam a despertar a atenção
da psiquiatria, que se organiza melhor como disciplina em meados do século,
acompanhando o avanço da farmacologia.
Surgem as psicocirurgias (lobotomia), os tratamentos com hormônios e
medicações específicas para problemas mentais, como o lítio. Mas é apenas
nos anos 70 que o estudo dos distúrbios sexuais passa a ser de fato um tema
da psiquiatria.
Começa a tentativa de criar medicamentos
mais específicos, que eliminem o desejo sexual excedente, sem tantos efeitos
colaterais. Nos anos 80, antidepressivos começam a ser aplicados nesses casos,
com alguns resultados. Mesmo assim, a psicoterapia continua sendo a base dos
tratamentos da compulsão sexual e de outros distúrbios semelhantes.
Sexo
compulsivo: o prazer doentio
Esqueça o Michael Douglas. Esqueça
aqueles filmes anunciados na locadora, apresentando atletas sexuais e orgias.
Quando o assunto é sexo patológico, essas são as primeiras imagens que vêm à
mente, mas não necessariamente correspondem à verdade. A pessoa que sofre desse
mal nem sempre faz ou pensa mais em sexo do que seu vizinho: o diferencial está
no estrago que esse comportamento acarreta em sua vida pessoal e profissional.
O sexo compulsivo é algo difícil de definir
com precisão. O número de relações sexuais por semana nem sempre é um bom
indicador do problema, pois varia até mesmo de país a país, segundo a cultura.
De acordo com um estudo divulgado no ano passado, que ouviu 26 mil homens e
mulheres, entre 40 e 80 anos, em 28 países, 75% dos brasileiros entrevistados
disseram fazer sexo uma ou mais vezes por semana. Nos Estados Unidos, essa
porcentagem cai para 59%, batendo nos 21% no caso do Japão, ainda segundo o
Estudo Global sobre Atitudes e Comportamentos Sexuais, pesquisa patrocinada por
um laboratório farmacêutico.
A compulsão sexual é uma dependência,
define o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, coordenador do Ambulatório de
Tratamento do Sexo Patológico, do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp. "O
'vício' em sexo é uma variante daquele em drogas ou em jogo, o funcionamento
é o mesmo, afirma. Para o psiquiatra, o sexo patológico é diagnosticado
quando a pessoa perde a liberdade por não conseguir controlar os seus
impulsos.
A advogada Angela, de 37 anos, começou as suas "escapadas" via internet.
"Depois do trabalho, entrava em bate-papos por distração", conta. Com o
tempo, passou a marcar encontros com os homens que conhecia on-line. "No
começo, levava um tempo para me acertar com eles, até ir para a cama. Só que
esse tempo foi diminuindo e passei a marcar encontros só para sexo fácil,
rápido, sem vínculos ou armadilhas", relata a advogada. As "escapadas", como
diz, que ocorriam uma ou duas vezes por semana, começaram a atropelar a sua
vida. "Para uma pessoa que é casada, trabalha, tem responsabilidade e
rotina, dedicar-se a isso exige um esforço significativo. Perdia noites de
sono na internet, à busca de pessoas disponíveis, desmarcava compromissos e
sem querer afastei-me do meu marido e da minha vida. Eu considerava que
tinha um casamento bacana, uma vida sexual legal com o meu marido, mas,
mesmo assim, tinha outra vida, cheia de riscos", declara.
Diagnóstico dos transtornos
do prazer
Para o psiquiatra Aderbal Vieira
Júnior, a dependência é uma relação problemática com uma experiência ligada ao
prazer. "A pessoa tende ao exagero, ao contraproducente em relação a coisas prazeirosas." Por isso, o
psiquiatra prefere a expressão "sexo patológico" a "compulsão sexual".
"Outros pesquisadores vêem esse problema como um transtorno obsessivo
compulsivo, como a cleptomania ou a lavagem excessiva das mãos. Discordo
porque esses transtornos não estão ligados ao prazer, só tem um lado ruim."
O prazer existe, mas é efêmero e
destrutivo, afirma o estudante João, de 26 anos. "Você pode ter um belo orgasmo,
sentir aquele alívio, mas em seguida sente um vazio. É desgastante: tem prazer,
mas não há continuidade, relação afetiva, é como se você fosse um corpo, não uma
pessoa. Esse vazio faz com que você saia no dia seguinte à procura de mais",
relata. O profissional liberal Henrique, de 40 anos, que contabiliza "escapadas"
desde a adolescência, nota um aumento de freqüência quando seu dia-a-dia não vai
bem. "A adrenalina faz com que eu me sinta vivo, é como uma droga. Só que depois
fico amargo e levo dias para me recuperar, é uma mistura de prazer e
esgotamento", afirma.
Apesar de já ser descrito há bastante
tempo, o sexo patológico ainda é pouco conhecido. O diagnóstico é feito por uma
avaliação psiquiátrica. Alguns pesquisadores acham que pode haver alguma origem
orgânica para esse tipo de distúrbio, mas nada foi provado até agora.
"Apresentar alterações psicopatológicas não significa estar doente, apenas é um
sinal de que há algo disfuncional na pessoa", explica Vieira. A forma mais usada
de tratamento é a psicoterapia, tanto em grupo quanto individual.
Um outro problema que surge quando se fala
dessa patologia é o papel que o sexo ocupa na sociedade moderna. "Já tive um
caso em que o paciente veio fazer uma entrevista, contou sua vida e depois não
quis começar o tratamento. Ele queria apenas contar vantagem", relata Vieira.
"Vivemos neste padrão." O estudante João, que vive essa "compulsão" há seis
anos, concorda. "Se você disser que transou com dez em uma noite, as pessoas vão
querer estar no seu lugar. Isso não passa a imagem de um distúrbio. Se fizer
ressalvas, dizendo que foi mal na prova ou faltou ao trabalho por causa disso,
as pessoas podem até relativizar, mas batem palmas para você do mesmo
jeito."
Revelações surpreendentes
Antes de começar a distribuição de
medicamentos, os integrantes do grupo responderam a um questionário, que revelou
dados surpreendentes. A amostra é de 24 pacientes, dos quais apenas um era
mulher, o que está de acordo com dados internacionais, que mostram que cerca de
95% das pessoas que buscam tratamento para o sexo patológico são homens. Vieira,
entretanto, faz uma ressalva: "Esse problema provavelmente acontece mais com
homens, mas a nossa cultura também faz com que as mulheres sejam mais
refratárias na hora de procurar ajuda."
A idade média dos pacientes é de 34 anos.
"Essa é a idade em que as pessoas procuram o tratamento, elas podem já ter o
problema há algum tempo", afirma Vieira. Segundo o psiquiatra, elas procuram
tratar-se nessa fase da vida porque é quando os prejuízos começam a ficar mais
evidentes. Por volta dos 30 anos, a vida começa a ficar mais estável, as pessoas
casam, estão engrenadas no emprego e esse comportamento tende a ser prejudicial.
No caso de Angela, foram vários os sinais
de alerta. "Um cara com quem saí conseguiu o telefone da minha casa e ficou
ligando, outra vez estourou a camisinha. Em um caso, senti que não era dona da
minha escolha, que não selecionaria aquele homem para ir para a cama. Fui mesmo
assim, o que me deu uma ressaca moral enorme. Já não podia passar muito tempo
sem escapadas e isso me deixava incomodada", lembra.
A escolaridade do grupo é muito alta: 37%
tem terceiro grau completo, 30% tem segundo grau completo e 15% tem terceiro
grau incompleto. "Jogadores compulsivos têm um perfil quase tão instruído quanto
eles, que é muito distante da dependência química", aponta o psiquiatra. Os
dependentes químicos (álcool, drogas) teriam um perfil bastante semelhante, por
sua vez distante dos não-químicos (jogo, sexo, internet). Em 54% dos pacientes
analisados foram apontados sintomas de transtornos psiquiátricos, como
depressão ou ansiedade. Cerca de 58% apresentaram sintomas de parafilias
como exibicionismo (20%), voyeurismo (16%), masoquismo (8%) e pedofilia
(4%). Homossexuais e bissexuais foram incluídos nessa estatística.
Outros dados mostram que 41% dos perfilados
têm parceiro fixo e que a média de parceiros sexuais de cada paciente é de 161
pessoas. Os pacientes apontaram como principal área de prejuízo a profissional
(60%), a pessoal (45%) e a familiar (16%). Os dados que mais chamam a atenção -
justamente por não serem tão aberrantes - apontam que, em média, cada paciente
tem um parceiro por semana (que pode ser o mesmo), pensa em sexo 5 vezes por
dia, tem 2,4 relações sexuais por semana, masturba-se 9,3 vezes por semana e tem
uma média de 11,7 orgasmos por semana.
Vieira confirma que a variação dos dados é
grande. Da mesma forma que há pessoas que ficam felizes fazendo sexo uma vez por
mês, outras querem fazê-lo dez ou mais vezes por dia. No dia da aplicação do
questionário, eles estavam, em média, de 4 dias sem sexo e 2,3 dias sem se
masturbar.
O alerta do profissional liberal Henrique foi quando ele notou sintomas de
paranóia. "Só saía de casa de óculos escuros e boné, com medo de ser
reconhecido. Não conseguia mais relaxar", conta. A "droga" de Henrique é a
mistura "sexo + perigo". Homossexual, tinha como hábito sair à busca de
adrenalina à noite, voltando de festas ou bares. "Via pessoas estranhas na
rua e abordava", relata. "Tinha uma atração meio mórbida, procurava lugares
esquisitos, como cemitérios, ou perigosos, onde ninguém queria ir." Essa
busca pelo perigo o expôs a situações de risco, como ter uma arma apontada à
cabeça, sofrer violência sexual e saber que havia sido filmado fazendo sexo.
"Ficou difícil administrar essa dependência, culpa, a associação entre o
perigo e a adrenalina que dá. Vi que precisava de ajuda."
Tratamento com remédio e terapia
Em relação ao medicamento, os
resultados preliminares da pesquisa apontaram que, de uma forma geral,
as pessoas que tomaram fluoxetina melhoraram um pouco mais do que as
outras. A droga de fato fez diferença, mesmo que não de forma impactante.
Entretanto, não apresentou um resultado mais significativo nas pessoas
com sintomas de depressão. Entre os parafílicos - aqueles de
comportamento sexual "anormal" -, houve uma diminuição quantitativa, mas
não qualitativa, isto é, eles não adotaram um perfil sexual mais
"normal". "Nesse sentido, talvez seja possível considerar que a
parafilia não é um transtorno ou uma doença, assim como a
homossexualidade", cogita Vieira.
Para os pacientes, o mais importante parece ser a terapia. "Só de
começar a falar sobre isso foi um alívio, era um segredo mantido a sete
chaves até para eu mesmo", afirma Henrique. "Percebi que existem muitas
questões envolvidas, que eu canalizava minhas dificuldades no trabalho,
nos estudos e nos relacionamentos para o sexo", diz João. "Agora sei que
posso ter mais prazer tomando uma cerveja com os amigos do que na cama.
Descobri uma versatilidade de prazeres que não conseguia enxergar. E as
pessoas precisam saber que esse problema existe, que não é pecado ou
sacanagem."
Outro ponto ressaltado é que os pacientes com parceiro fixo melhoraram
um pouco mais que os outros. Os resultados não são definitivos, apenas
indicam tendências ou idéias que precisam ser exploradas mais a fundo,
avisa o coordenador do estudo. A advogada Angela contou ao marido sobre
sua "vida dupla". "Ele também precisou de apoio para passar por tudo
isso, ambos fazemos terapia hoje. O apoio dele me deu mais confiança e
fortaleceu a nossa relação", explica.
Segundo o psiquiatra, o estudo aponta que é preciso propor tratamentos
que não levem à supressão desse comportamento patológico, mas que
fortaleçam o paciente, de forma que ele possa ser independente e fazer
suas próprias escolhas. "Esse comportamento não pode ser visto como algo
"a mais" na pessoa: ela é aquilo, se você tirar isso dela, vai ficar
faltando um pedaço", declara Vieira. "A sexualidade precisa ser uma
parte integrante da vida, não algo isolado do resto", resume Angela.